Aspectos relevantes na concepção de sistemas de esquadrias na região norte do RS
(1) Professor Doutor, Adjunto, Universidade de Passo Fundo - Curso de Arquitetura e Urbanismo, Campus I, BR 285 - Km 171, Bairro São José, (54) 33168216 e-mail:egcunha@upf.br
A renovação do ar interior é fundamental em qualquer edifício, seja um pavilhão industrial ou dormitório, seja para diluir a concentração de poluentes, gerados pela utilização dos espaços, ou para minimizar os efeitos de temperaturas elevadas.
No caso de ambientes residenciais o homem ao respirar, absorve o oxigênio do ar e expele dióxido de carbono e vapor de água. Expele micróbios de que é portador quando fala, tosse ou espirra. Exala odores provenientes da pele ou do vestuário com maior ou menor intensidade, conforme os hábitos alimentares e higiênicos. Vicia o ar com fumaça proveniente dos cigarros. Transmite ao ar uma certa quantidade de calor dependente da intensidade do metabolismo. Expele uma certa porção de vapor de água pela transpiração da pele (TOLEDO, 2000, p.18).
No caso de indústrias, por exemplo, além dos problemas da poluição do ar gerados por meio do uso, existe também a necessidade de minimizar os efeitos provenientes do aquecimento do ambiente, aspectos também presentes em residências e outras tipologias variadas, porém, com a agravante da perda da eficiência dos trabalhadores e riscos maiores com acidentes de trabalho. De acordo com a ASHRAE apud SIGLIANO e ROLLO (2001, p.9) há uma perda de 1,8% para cada grau que a temperatura ambiente subir acima de 27 ºC, comprometendo a produtividade. Vale lembrar que as estatísticas indicam que em indústrias, os acidentes de trabalho aumentam na proporção que o conforto térmico abaixa, podendo crescer até 40% quando a temperatura subir 10ºC acima do nível de conforto.
O foco desta discussão está baseado na análise dos edifícios residenciais, e nesse contexto, segundo TOLEDO (2000, p.19), os dados experimentais comprovam que a concentração de dióxido de carbono, proveniente da respiração das pessoas, não chega a constituir um problema nos tipos comuns de edifícios, servindo, entretanto, como um meio de controle das características da ventilação de um ambiente. TOLEDO (2000, p.20) afirma também que, nas épocas de calor, o mal estar provém usualmente, da elevação da temperatura do ar e do aumento da umidade, provocados pelas pessoas que se encontram no ambiente, e que vão tornando cada vez mais difícil a dissipação do calor humano.
Lamberts (1997) apresenta uma análise do clima de algumas capitais brasileiras, utilizando o método do ano climático de referência, por meio da qual é possível observar que em muitas cidades de algumas regiões do país, nos períodos de desconforto, gerados a partir de temperaturas elevadas, a ventilação proporciona a sensação de conforto térmico tão necessária nos espaços abertos e fechados. No caso de Porto Alegre, por meio da análise de Lamberts (1997), é possível verificar que das 25,9% das horas do ano em que a temperatura está acima dos 29ºC, ou até mesmo com temperaturas menores, mas com elevados índices de umidade relativa do ar, em 23,4% a ventilação do ambiente minimiza os efeitos do calor, proporcionando a sensação de conforto térmico aos usuários dos espaços interiores, ou seja, a renovação do ar interior passa a ser um dos aspectos mais importantes para a manutenção da qualidade térmica dos espaços.
Dentro do contexto da importância da ventilação para os espaços construídos, pode-se destacar também a questão da eficiência energética da edificação. A renovação do ar interior, além de interferir diretamente na qualidade física, química e biológica do ar, relaciona-se diretamente à necessidade de utilização de sistemas de climatização artificial. O estudo de Lamberts (1997) mostra que 1,4% das horas do ano em Porto Alegre é necessário a utilização de ar condicionado. Este valor pode sofrer variações significativas considerando a configuração física, como também a orientação das edificações. MASCARÓ (1991, p.21) relata que em função da orientação do edifício, a quantidade de energia proveniente da radiação solar ganha pela construção pode variar em até 150%. Um edifício bem orientado consome mensalmente em média, 1,3 KW/h de energia operante por metro quadrado de superfície de apartamento, enquanto que numa má orientação com as fachadas principais expostas à maior carga térmica possível, o edifício consome até 1,9KW/h.
A importância da ventilação para o contexto das edificações é um fato compreendido e já difundido na projetualidade da arquitetura, porém, a concepção de sistemas de renovação natural do ar interior não têm sido realizada de maneira eficiente, seja pela necessidade de minimização de custos na especificação de materiais e técnicas construtivas, ou pela execução de projetos inadequados.
No caso da minimização de custos na construção civil, é muito comum serem encontradas esquadrias que não possibilitam a climatização natural de ambientes em períodos, até mesmo, em que a temperatura está abaixo do limite de conforto, definido por Givoni, de 29ºC. Essa inadequação dos sistemas é fruto, principalmente, do desconhecimento dos requisitos básicos que uma esquadria deve satisfazer, considerando diferentes contextos climáticos. Esses requisitos, para um clima subtropical, são definidos pelo controle da radiação solar direta e dos fluxos de ventilação. O controle da radiação solar é caracterizado pela possibilidade da incidência da energia proveniente do sol em períodos frios e pelo bloqueio em quentes. Já o controle dos fluxos de ventilação é definido pela possibilidade da ventilação higiênica em períodos de temperaturas próximas do limite inferior de conforto (18ºC), e pela ventilação de conforto em períodos de temperaturas intermediárias e umidade acima dos 80%, como também temperaturas entre os 29ºC e 32ºC, com níveis de umidade relativa do ar variados. Esse tema é tratado detalhadamente no item 3.


REQUISITOS PARA A EXISTÊNCIA DE VENTILAÇÃO NATURAL NO AMBIENTE CONSTRUÍDO
Costa (1999) classifica a renovação do ar de um ambiente em natural ou espontânea e artificial ou forçada. Recebe o nome de ventilação espontânea de uma local aquela que se verifica em virtude das diferenças de pressões naturais (originadas pelos ventos e gradientes de temperatura), existentes através das superfícies que limitam o ambiente considerado COSTA (1999, p.108).

Essas diferenças de pressão causadas pela ação de ventos e pelo gradiente vertical de temperatura podem ser visualizadas por intermédio da tabela 1.



Um segundo importante ponto vinculado ao funcionamento das esquadrias é a possibilidade do controle dos fluxos de ar internos. Dependendo do contexto climático em análise, é necessário que as esquadrias possibilitem movimentos de ar em diferentes alturas, proporcionando a ocorrência da ventilação higiênica e de conforto. A ventilação higiênica é necessária quando a temperatura está próxima dos limites inferiores de conforto, e a necessidade de renovação do ar é oriunda da ausência de renovação mecânica de ar e da obrigatoriedade da diluição de contaminantes gerados pelo uso do espaço. O fluxo de ar percorre um caminho acima da altura do usuário do espaço interior, nesse sentido, é necessário que as esquadrias exteriores e interiores possuam dispositivos reguláveis que permitam o controle do fluxo junto ao forro.
A ventilação de conforto, necessária nos períodos quentes, ocorre através do funcionamento total da esquadria, ou seja, caixilhos superiores e inferiores. A figura 7 apresenta esquematicamente a caixilharia de uma esquadria externa e suas respectivas funções, no que tange à ventilação.
Uma terceira importante exigência a ser cumprida pela esquadria externa é o controle seletivo da radiação solar direta. Infelizmente, os sistemas de proteção solar são entendidos na projetualidade da arquitetura em geral como soluções esteticamente inadequadas, independentes da organização compositiva das edificações. Na verdade, os arquitetos esquecem que o sistema de proteção solar pode ser caracterizado como qualquer elemento, natural ou artificial, que possibilita a entrada seletiva de energia solar no interior dos ambientes. Uma sacada, em uma tipologia residencial, uma árvore caducifólia, um beiral, uma fachada máscara, são elementos que podem qualificar plasticamente um edifício e ao mesmo tempo ajudar no controle da ambiência interna dos espaços servidos pelas esquadrias externas. O sistema de proteção solar têm sido empregado na arquitetura européia e em alguns bons exemplos no Brasil como um elemento de extrema importância na organização formal dos edifícios, fruto de uma postura madura e comprometida com a eficiência energética das edificações.
A proteção e o controle da radiação solar pode também ser realizada por intermédio do plano transparente, com base na utilização de variados tipos de vidro - reflexivos, absorventes, entre outros, como também através de dispositivos internos, como cortinas das mais variadas configurações. Quando a energia solar é controlada internamente, por meio de cortinas ou outros dispositivos, ou no plano transparente, através de vidros especiais, há o ônus dos excessivos ganhos térmicos.

Obviamente que, trabalhar simultaneamente todas as exigências de controle de radiação solar direta e fluxos de ventilação é uma tarefa que requer muitos cuidados. O que se têm visto na produção no interior da região sul do país é uma despreocupação total com o usuário do espaço interior, no que tange o projeto de sistemas de esquadrias, conforme figura 1. As esquadrias utilizadas funcionam apenas como dispositivos que controlam a entrada de ar. A proteção solar fica por conta do futuro usuário do espaço, resultando na maioria das vezes em soluções paliativas que promovem a maximização dos ganhos térmicos em todos os períodos do ano. Os espaços resultantes viram estufas e a qualidade térmica do ar interior é totalmente comprometida pelas excessivas temperaturas.
É importante ressaltar que para a manutenção da qualidade térmica e químico-biológica do ar interior, considerando a ausência de sistemas de climatização artificial, o projeto dos sistemas de esquadrias internas e externas é um aspecto fundamental. No próximo item são apresentados aspectos relevantes na caracterização do projeto pertinente de esquadrias.
A partir dos conhecimentos das características do vento incidente e das variáveis definidas pelo entorno – afastamentos da edificação dos obstáculos externos naturais e construídos – e pelo ambiente interno – volume e geometria, obstruções internas, ocupação e atividade, deve-se prever que o sistema de ventilação natural deverá apresentar, necessariamente, as aberturas para a entrada de ar na zona de alta pressão, na qual ocorre a incidência de vento, e saídas na zona de baixa pressão, permitindo, assim, a ventilação cruzada. Conforme MASCARÓ (1985, p.89), a orientação das aberturas deve ser o mais frontal possível, podendo ser obtida uma ventilação satisfatória com ângulo de até 50º em relação à perpendicular da direção do vento.
Além do conhecimento dos ventos predominantes na região onde o edifício está inserido, é necessário o conhecimento de alguns requisitos básicos a serem considerados durante o projeto dos sistemas de esquadrias. São eles:
a) permeabilidade interna;
b) controle dos fluxos de ar;
c) controle da radiação solar direta e difusa;
d) utilização dos espaços exteriores como elementos de climatização natural;
e) aproveitamento da ação dos ventos e das diferenças de temperatura de forma integrada.



É importante ressaltar que, além dos cuidados necessários com o projeto de esquadrias, existem outros aspectos que podem resultar numa melhoria da qualidade do ar interior, considerando a ventilação natural. Um desses aspectos é o tratamento dos espaços exteriores. CUNHA (2005, p.63) afirma que o tratamento dos espaços exteriores, em se tratando de edificações de 1 ou 2 pavimentos, objetiva minimizar os efeitos do calor excessivo em períodos quentes, sem comprometer o aproveitamento da radiação solar direta em períodos frios. Muitas vezes, em períodos quentes, as áreas abertas podem proporcionar um aquecimento indesejável do ar exterior antes mesmo do fluxo de ar penetrar na edificação. A comunidade de projetistasdeve considerar que o paisagismo desempenha mais de uma função quando presente numa edificação.

Ainda no âmbito do projeto das esquadrias, uma estratégia importante a ser utilizada é o aproveitamento da ação dos ventos e das diferenças de temperatura de forma integrada. Isso implica na utilização de esquadrias em diferentes alturas, promovendo a renovação do ar interior quando da




No caso da comunidade de profissionais do interior da região norte do RS, é necessária a compreensão que, sob hipótese nenhuma, a racionalização dos sistemas construtivos objetivando a minimização dos custos na construção, pode maximizar os problemas da qualidade ambiental dos espaços interiores. A racionalização deve ser levada a cabo de forma consciente e responsável proporcionando, sempre, a melhoria da qualidade do ar dos espaços gerados.
COSTA, Ênio Cruz da. Física aplicada à construção. São Paulo: Edgard Bluecher, 4 ed., 1999.
CUNHA, Eduardo Grala da, MASCARÓ, Juan José, VASCONCELLOS, Luciano, QUEVEDO, Evaniza, FRANDOLOSO, Marcos. Elementos de arquitetura de climatização natural. Porto Alegre: Masquatro, 2 ed., 2006.
LAMBERTS, Roberto; Dutra, Luciano; Pereira, Fernando O. R. Eficiência energética na arquitetura. São Paulo: Procel, 1997.
MARTÍNEZ, Alfonso Corona. Ensaio sobre o projeto/ Alfonso Corona Martínez; tradução de Ane Lise Spaltemberg; revisão técnica de Silvia Fischer. – Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2000. 198 p.
MASCARÓ, Lúcia. Energia na edificação. São Paulo: Projeto editores associados, 1991.
SCIGLIANO, Sérgio, HOLLO, Vilson. IVN – Índice de ventilação natural. São Paulo: Pini, 2001.
SILVA, Elvan. Notas sobre as concepções predominantes no ensino do projeto arquitetônico: o conceito de projetualidade. Belo Horizonte: Centro Universitário Izabela Hendrix, 2004.
TOLEDO, Eustáquio. Ventilação natural das habitações. Maceió: EDUFAL, 1999.


